Archive for março 2014
O transeunte e o desgraçado
Fazem vinte anos que não venho a Aimar, minha cidade natal. Pedi licença em casa para andar um pouco, aproveitando a luz proporcionada pela lua cheia, que durante uma noite como aquela era viva e inspiradora. Às dez horas, descia alguma viela em uma profunda viagem. Não o que se costuma entender por viagem, mas daquelas que se faz dentro de si mesmo, iluminando e refletindo a própria alma. Meus pensamentos iam tão longe, que estava correndo o perigo de ser mais um dos atropelados da noite. Sabia que corria o risco, mas, quem hoje em dia pára um instante para se ouvir? Estamos todo o tempo nos calando. Somos ocupados e há sempre um entretenimento, uma distração para tapar os ouvidos.
Pensava sobre como seria possível amar as pessoas em verdade. Refiro-me à velha doutrina de Jesus. Não que eu fosse um cristão, mas aquilo realmente me incomodava. Falam por aí muito sobre seus ensinamentos, mas quem poderia fielmente os cumprir? Está certo que em minha mente já não se passava pergunta tão tosca, mas a partir dela é que surgiram tantas outras mais aparadas e não menos provocativas. Eu sabia que o amor apregoado pelo sujeito só era possível de ser realizado por intermédio de alguma força sobrenatural invisível e poderosíssima, da qual eu não tinha a mínima suspeita da existência. Mas, para piorar, sabia que, de todos os meus amigos crentes nessas palavras, não havia algum que demonstrasse publicamente o amor que insistiam fazer descer à goela dos fieis. Conclui que amar não era tarefa para um homem como eu. Talvez não fosse tarefa para homem algum.
Tão logo parei os pensamentos para olhar rapidamente em volta - e assim garantir que estava indo pelo caminho certo -, meus olhos fixaram-se numa figura esdrúxula, que estava alguns metros à minha frente. Tinha a silhueta de um homem, vestia um sapato que fora de homem, contorcia-se para tentar escapar do frio como o faria qualquer filho de mulher, mas seguramente não devia ser um deles. Deitava-se sobre o chão nojento de um terreno baldio, ainda úmido pela chuva da noite passada. Eu vi um pedaço de pano, que usava para cobrir-se e algumas folhas, que amontoava para simular um travesseiro. Aproximei-me para olhar de perto. Ele sequer percebeu a minha presença. Nada fez. Parecia ter arranjado uma posição mais quente ou talvez tenha cansado de lutar com o frio do outono que findava. Chamei-o uma vez, mas sem resposta. Insisti algumas outras vezes, aumentando o tom de voz, mas sem exageros para não atrair olhares. Dei de ombros e recuei voltando-me ao caminho. Então, ouvi uma voz trêmula:
- O que você quer?
Voltei o meu olhar novamente ao encontro da figura. Pensei comigo "Ele fala". Até hoje eu me rio e sinto vergonha desse tipo de bobagem neófita. Rio porque essa história termina bem. Melhor que todos rissem um pouco mais de si mesmos.
- Nada.
Foi a melhor resposta que um curioso poderia ter dado. Com dificuldade, o homem se pôs sentado e fitou-me diretamente nos olhos.
- Você veio escarnecer de mim como os outros? Há no inferno tantos defuntos para você se preocupar! Fui um grande homem de negócios, continuou. Perdi tudo o que eu tinha. Toda a minha família morreu de repente, a menos de minha esposa, que se foi com todos os meus bens! Meus empregados hoje não respondem ao meu comando e nem mesmo param para fitar-me no rosto. Todos os meus negócios foram sabotados por maus funcionários ou faliram sem nenhuma explicação. Hoje fazem trinta e três dias que vivo nesse chão imundo e infestado de vermes. Será que Deus olha para mim? Sou tolo. Não me dê atenção. "Nunca blasfemar contra Deus" é o que aprendi. Se Ele existe, grande tolice seria ser seu inimigo ou debatedor! Aprendi que, diante de alguém maior e mais forte, na falta de qualquer defesa efetiva, resta-nos pedir clemência. Não posso dizer que sou justo e culpar Deus por minhas chagas. Que o próprio Deus me impute justiça e que faça de mim o que quiser! Ouça, eu quero lhe falar mais. Eu tinha irmãos, mas me abandonaram. Eu tinha amigos, mas são os que zombam de mim. Meus inimigos não mais riem, pois já estão satisfeitos. Estou completamente derrotado. Diga-me, meu jovem, se eu poderia culpá-los? Não sou eu também que preciso de perdão? Eu tenho tantas culpas para com eles e para com Deus. Talvez, se eu tivesse sido um homem mais bondoso, hoje se lembrariam de mim. Uma semente plantada e regada deveria nascer. Por outro lado, penso que seus corações não sejam uma boa terra e nada nasceria de bom ali. Esse julgamento, de qualquer jeito, não cabe a mim! Que vantagem teria um morto ao nutrir rancor e querer vingança? Sou eu que sempre pereço. Para o pó voltarei, eu sei. Por isso mesmo, na minha pequenez eu tenho misericórdia de todos eles. Imagina se Deus, que é perfeito, seria menos piedoso do que eu. E pensar que, quando nada me faltava, achava tão difícil o exercício das virtudes. Como ser bondoso, piedoso, paciente e amoroso quando não percebia que essas coisas são as principais para a vida e todas as outras apenas satélites? Ora, querer eu queria ser bom. Mas, de que adianta uma vontade irresponsável, que não produz os meios para que se concretize? Percebi que as virtudes são para os homens que veem na sua frente nada além da morte. Pois que, quando o fim está próximo, não havendo uma alma sequer que garanta que não seremos cobrados depois do portal da morte, há de se ter cuidado com os feitos e desejos. Meu jovem não zombe de mim, falo todas essas coisas para que você tenha misericórdia desse trapo que vê. Deixe-me morrer em paz. Que não nasça no seu rosto um daqueles sorrisos diabólicos e penetrantes dos andarilhos quando passam por mim. Passam rindo, param e depois se vão. Nem mesmo têm a coragem de entrar aqui e encarar-me! Uns covardes... Uns covardes...
O velho então descambou a chorar.
Aquele discurso transpassou-me como a espada de um herói. Golpe inesperado. Todo o conteúdo que tinha, o velho parece ter despejado em mim, acertando-me o coração. Então, fiquei mudo e desfalecido diante do homem que, agora, me encarava gravemente, como que para manter a dignidade. O momento de reflexão enquanto andava esforçou demasiadamente minha alma. Meus pensamentos me deixaram emocionalmente frágil e eu estava de peito nu.
O homem exalava pena, mas soava sabedoria. Eu não poderia dar-lhe qualquer resposta satisfatória, apenas alguns trocados e ir embora calado, cobrindo desse jeito a minha vergonha. Ora, eu sou um pensador, um formador de opiniões, não admitia que um lazeirento daqueles pudesse me dar alguma lição. Para o meu infortúnio, o miserável era o exemplo do homem amoroso, o qual julguei não existir agora pouco. Tinha duas escolhas: furtar-me à situação, preservando o meu ego ou reconhecer meu erro. A segunda opção vinha com a indigerível consequência de ser obrigado a amar tanto como o velho amava, pois se é possível a um, deveria, portanto, ser a mim. Pensei um pouco mais, o que fez meu coração sincero amolecer e ficar rendido.
- Meu senhor, sou um homem de estudos, por isso mesmo sou dado às vaidades intelectuais. Descia pensativo a viela antes de percebê-lo. Você não imagina o quanto me feriu. Não se preocupe, pois há sofrimentos que passamos para o nosso bem. Importa que me sinta agora um homem melhor. Devo-lhe. Como gratidão, quero fazer uma proposta.
Depois de uma pequena pausa, o velho, agora mais tímido e de olhos baixos, balançou a cabeça em sinal afirmativo.
- Pois bem. Dou-lhe todo pão e vinho que quiser para aliviar seu sofrimento e deixar que morra em paz ou permito que trabalhe junto dos meus empregados e volte a ser visto como homem.
O velho sorriu. Um sorriso bonito e claro. Sua face agora tinha um brilho diferente.
- Ainda há bondade nesse mundo! Quem disse que as trevas venceram? Quem disse que as pessoas não tinham esperança? Sim, há esperança para homens como eu e você. O amor e a fé fortificam-na e entre si se edificam. Quem pode explicar o altruísmo de um coração sincero? Quem nos disse para assim procedermos? Porque alguém calaria seus instintos mais fortes de autodefesa e autopreservação para ajudar um velho morto? Deus seja louvado, grande coração!
- Não me amole com mais perguntas, seu velho! Vamos. – disse sorrindo.
Então, estendi-lhe a mão e o ajudei a levantar. Ergueu-se durante todos esses dez anos. Nesse ínterim, não tive melhor amigo. Com ele aprendi o que precisei para a vida, sendo para mim como o pai que não tive. Há se dessem mais valor aos velhos! Morreu realmente em paz e hoje, por esse relato, expresso meus sentimentos, deixando-os registrados à lápide, para a leitura de todos que nunca puderam conhecer um grande homem.
Pensava sobre como seria possível amar as pessoas em verdade. Refiro-me à velha doutrina de Jesus. Não que eu fosse um cristão, mas aquilo realmente me incomodava. Falam por aí muito sobre seus ensinamentos, mas quem poderia fielmente os cumprir? Está certo que em minha mente já não se passava pergunta tão tosca, mas a partir dela é que surgiram tantas outras mais aparadas e não menos provocativas. Eu sabia que o amor apregoado pelo sujeito só era possível de ser realizado por intermédio de alguma força sobrenatural invisível e poderosíssima, da qual eu não tinha a mínima suspeita da existência. Mas, para piorar, sabia que, de todos os meus amigos crentes nessas palavras, não havia algum que demonstrasse publicamente o amor que insistiam fazer descer à goela dos fieis. Conclui que amar não era tarefa para um homem como eu. Talvez não fosse tarefa para homem algum.
Tão logo parei os pensamentos para olhar rapidamente em volta - e assim garantir que estava indo pelo caminho certo -, meus olhos fixaram-se numa figura esdrúxula, que estava alguns metros à minha frente. Tinha a silhueta de um homem, vestia um sapato que fora de homem, contorcia-se para tentar escapar do frio como o faria qualquer filho de mulher, mas seguramente não devia ser um deles. Deitava-se sobre o chão nojento de um terreno baldio, ainda úmido pela chuva da noite passada. Eu vi um pedaço de pano, que usava para cobrir-se e algumas folhas, que amontoava para simular um travesseiro. Aproximei-me para olhar de perto. Ele sequer percebeu a minha presença. Nada fez. Parecia ter arranjado uma posição mais quente ou talvez tenha cansado de lutar com o frio do outono que findava. Chamei-o uma vez, mas sem resposta. Insisti algumas outras vezes, aumentando o tom de voz, mas sem exageros para não atrair olhares. Dei de ombros e recuei voltando-me ao caminho. Então, ouvi uma voz trêmula:
- O que você quer?
Voltei o meu olhar novamente ao encontro da figura. Pensei comigo "Ele fala". Até hoje eu me rio e sinto vergonha desse tipo de bobagem neófita. Rio porque essa história termina bem. Melhor que todos rissem um pouco mais de si mesmos.
- Nada.
Foi a melhor resposta que um curioso poderia ter dado. Com dificuldade, o homem se pôs sentado e fitou-me diretamente nos olhos.
- Você veio escarnecer de mim como os outros? Há no inferno tantos defuntos para você se preocupar! Fui um grande homem de negócios, continuou. Perdi tudo o que eu tinha. Toda a minha família morreu de repente, a menos de minha esposa, que se foi com todos os meus bens! Meus empregados hoje não respondem ao meu comando e nem mesmo param para fitar-me no rosto. Todos os meus negócios foram sabotados por maus funcionários ou faliram sem nenhuma explicação. Hoje fazem trinta e três dias que vivo nesse chão imundo e infestado de vermes. Será que Deus olha para mim? Sou tolo. Não me dê atenção. "Nunca blasfemar contra Deus" é o que aprendi. Se Ele existe, grande tolice seria ser seu inimigo ou debatedor! Aprendi que, diante de alguém maior e mais forte, na falta de qualquer defesa efetiva, resta-nos pedir clemência. Não posso dizer que sou justo e culpar Deus por minhas chagas. Que o próprio Deus me impute justiça e que faça de mim o que quiser! Ouça, eu quero lhe falar mais. Eu tinha irmãos, mas me abandonaram. Eu tinha amigos, mas são os que zombam de mim. Meus inimigos não mais riem, pois já estão satisfeitos. Estou completamente derrotado. Diga-me, meu jovem, se eu poderia culpá-los? Não sou eu também que preciso de perdão? Eu tenho tantas culpas para com eles e para com Deus. Talvez, se eu tivesse sido um homem mais bondoso, hoje se lembrariam de mim. Uma semente plantada e regada deveria nascer. Por outro lado, penso que seus corações não sejam uma boa terra e nada nasceria de bom ali. Esse julgamento, de qualquer jeito, não cabe a mim! Que vantagem teria um morto ao nutrir rancor e querer vingança? Sou eu que sempre pereço. Para o pó voltarei, eu sei. Por isso mesmo, na minha pequenez eu tenho misericórdia de todos eles. Imagina se Deus, que é perfeito, seria menos piedoso do que eu. E pensar que, quando nada me faltava, achava tão difícil o exercício das virtudes. Como ser bondoso, piedoso, paciente e amoroso quando não percebia que essas coisas são as principais para a vida e todas as outras apenas satélites? Ora, querer eu queria ser bom. Mas, de que adianta uma vontade irresponsável, que não produz os meios para que se concretize? Percebi que as virtudes são para os homens que veem na sua frente nada além da morte. Pois que, quando o fim está próximo, não havendo uma alma sequer que garanta que não seremos cobrados depois do portal da morte, há de se ter cuidado com os feitos e desejos. Meu jovem não zombe de mim, falo todas essas coisas para que você tenha misericórdia desse trapo que vê. Deixe-me morrer em paz. Que não nasça no seu rosto um daqueles sorrisos diabólicos e penetrantes dos andarilhos quando passam por mim. Passam rindo, param e depois se vão. Nem mesmo têm a coragem de entrar aqui e encarar-me! Uns covardes... Uns covardes...
O velho então descambou a chorar.
Aquele discurso transpassou-me como a espada de um herói. Golpe inesperado. Todo o conteúdo que tinha, o velho parece ter despejado em mim, acertando-me o coração. Então, fiquei mudo e desfalecido diante do homem que, agora, me encarava gravemente, como que para manter a dignidade. O momento de reflexão enquanto andava esforçou demasiadamente minha alma. Meus pensamentos me deixaram emocionalmente frágil e eu estava de peito nu.
O homem exalava pena, mas soava sabedoria. Eu não poderia dar-lhe qualquer resposta satisfatória, apenas alguns trocados e ir embora calado, cobrindo desse jeito a minha vergonha. Ora, eu sou um pensador, um formador de opiniões, não admitia que um lazeirento daqueles pudesse me dar alguma lição. Para o meu infortúnio, o miserável era o exemplo do homem amoroso, o qual julguei não existir agora pouco. Tinha duas escolhas: furtar-me à situação, preservando o meu ego ou reconhecer meu erro. A segunda opção vinha com a indigerível consequência de ser obrigado a amar tanto como o velho amava, pois se é possível a um, deveria, portanto, ser a mim. Pensei um pouco mais, o que fez meu coração sincero amolecer e ficar rendido.
- Meu senhor, sou um homem de estudos, por isso mesmo sou dado às vaidades intelectuais. Descia pensativo a viela antes de percebê-lo. Você não imagina o quanto me feriu. Não se preocupe, pois há sofrimentos que passamos para o nosso bem. Importa que me sinta agora um homem melhor. Devo-lhe. Como gratidão, quero fazer uma proposta.
Depois de uma pequena pausa, o velho, agora mais tímido e de olhos baixos, balançou a cabeça em sinal afirmativo.
- Pois bem. Dou-lhe todo pão e vinho que quiser para aliviar seu sofrimento e deixar que morra em paz ou permito que trabalhe junto dos meus empregados e volte a ser visto como homem.
O velho sorriu. Um sorriso bonito e claro. Sua face agora tinha um brilho diferente.
- Ainda há bondade nesse mundo! Quem disse que as trevas venceram? Quem disse que as pessoas não tinham esperança? Sim, há esperança para homens como eu e você. O amor e a fé fortificam-na e entre si se edificam. Quem pode explicar o altruísmo de um coração sincero? Quem nos disse para assim procedermos? Porque alguém calaria seus instintos mais fortes de autodefesa e autopreservação para ajudar um velho morto? Deus seja louvado, grande coração!
- Não me amole com mais perguntas, seu velho! Vamos. – disse sorrindo.
Então, estendi-lhe a mão e o ajudei a levantar. Ergueu-se durante todos esses dez anos. Nesse ínterim, não tive melhor amigo. Com ele aprendi o que precisei para a vida, sendo para mim como o pai que não tive. Há se dessem mais valor aos velhos! Morreu realmente em paz e hoje, por esse relato, expresso meus sentimentos, deixando-os registrados à lápide, para a leitura de todos que nunca puderam conhecer um grande homem.
